Arquivado em: brasil, brasileira, contos e cronicas, escritos, feminina, historia, historias, literatura | Etiquetas: historia, conto de amor, carta, bilhetes, clichê, literatura
Ela era Ana; ele, Daniel. Se conheceram no tempo de colégio. Ana era bela, bela Ana, pois a beleza está no espírito das coisas. Era menina doce. Ainda não conhecia o transbordar de vida que morava dentro dela. Ana não se permitia passar pelo estado verde das coisas: o estado da beleza bruta. Era dura de tão angelical, comportada e sensata. Ela sabia que seu comportamento não condizia com o que sentia no fundo de si, mas ela não sabia o que sentia. Daniel era menino-homem, observador e belo. Daniel era poeta e amou Ana no primeiro instante em que a viu. E um dia, fez Ana receber um bilhete-poema-carta. Entregou o papel e foi-se embora. Ana ficou imóvel.
E era como se fosse o primeiro beijo. E este beijo falava de água, de mar, de uma pedra e da beleza, da sua beleza. Com suas palavras, Daniel tocou Ana. E ela, com o espírito tocado, tocava-se em si mesma. A alma por si só tocava seu corpo, e era como se fosse a primeira noite de amor. E foi só assim que eles se conheceram, por palavras e por ir a fundo um em cada um. E a cada dia se comunicavam por bilhetes escondidos, como casais que se espreitam atrás de alguma moita, se agarram num elevador vazio, na escada de um prédio, no banheiro de um botequim… Ana não via a hora de deixar um bilhete no livro que Daniel havia emprestado a um amigo e este pedido à Ana que devolvesse ao Daniel. E estes bilhetes falavam de mar, de água, sol, flores, cores, dessas coisas que têm alma, e não falavam de gente.
Mas um dia, Daniel foi embora. Deixou o colégio e deixou também Ana na sua pacata vida de boa menina. Deixou-a apenas com a memória escrita e a pena de sua ausência. E o silêncio fez-se escuro. Ana tateava no mundo sem o seu alimento que surgia em tão pouco tempo: a vida das palavras. No escuro da ausência, Ana viu, porém, que o silêncio era a presença das tintas derramadas, que eram tantas… E o silêncio escuro fez-se dia. E Ana acordou Daniel dentro de si. Ela se tornava mulher, e não era mais santa, nem pacata. Sentia seu corpo despontar, seus desejos cantarem, seus olhos chorarem – e escrevia. A cada dia escrevia. E foi tomando sua vida, galgando num cavalo branco, sem sela, nem rédeas. Ela nua com a vida, no cavalo, os cabelos longos e a boca vermelha. E com suas palavras Ara virou mulher. E no seu estado mulher foi vivendo sozinha. E vivia como gente comum. Estudou, estudava, trabalhou, trabalhava – e escrevia. De ônibus em ônibus, de par em par, de bar em bar, na vida urbana ela vivia.
Um dia, Ana saiu do trabalho, ia para casa pensando em nada, e sentido o cheiro do nada. Duas horas da tarde, hora dura em que todas as coisas estão visíveis – este pensamento ela já tinha sentido antes. Lembrou-se da última carta de Daniel. Ele é que havia escrito estas palavras, mas agora eram dela também. Sorriu. O ônibus passava ao lado de uma igreja azul. Batia um vento leve e, na calçada, um homem andava solto pelo vento. Os cabelos livres e uma linda barba de profeta. Os olhos iam de encontro ao sol.
E foi só de um suspiro que as águas se misturaram no fogo e Ana transbordou pela janela…
- Daniel!
Gritou com toda sua alma. Ele sentiu a voz de Ana e se olharam. E se viram tão dentro como ainda não tinham se visto. Eram um. E se amaram durante menos de meio minuto e por todo o sempre. Ela seguiu no ônibus, ele continuou a caminhar.Ele era Ana; ela, Daniel.